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Breve diálogo de infância

Março de 1990 - Por que seus cabelos são brancos? - Stress... - O que é stress? - Algo que você ainda não tem... - Me explica o que é. - Estou apressado... e por que você não pergunta a sua mãe? - Por que eu não a vejo com tanta frequência como eu vejo o senhor. - Primeiramente, não me chame de senhor. Segundo, eu nem te conheço... E terceiro, cadê sua mãe? - Primeiramente, o chamei de senhor por educação... 'Segundamente', eu vejo o senhor todos os dias lá de cima... 'Terceiramente', minha mãe está em casa, não fico muito tempo lá. - Lá de cima? - Da árvore, passo o dia inteiro lá... Nas férias contei todos os seus cabelos brancos. - Impossível, são incontáveis. - Contei na semana passada e dava pra contar sim, eram poucos... Hoje contei novamente e por isso que vim conversar com o senhor... - Você veio conversar comigo por que percebeu que meus cabelos brancos aumentaram? - Aham. Será por conta desse “stress”? - Certamente. - Tenho...

Repertório

Suponho que você já tenha falado, pelo menos uma vez na vida, sozinho. Suponho que já tenha ido a um estádio, que já tenha passado por alguma situação constrangedora, imaginou que poderia ser um super-herói, achou que determinada música foi escrita especialmente com base em sua relação amorosa. Tenho certeza que você já riu de alguém, sem perceber que alguém estava rindo de você também.  Tenho uma certeza quase absoluta que você se “apaixonou” algumas vezes. Suponho que você já caiu de bicicleta, tirou nota baixa, passou por umas crises de idade, respondeu a sua mãe, não quis tomar banho, quis ir morar em Pasárgada, sentiu vergonha quando seus pais estavam presentes na sala e passava alguma coisa inapropriada pra vocês assistirem juntos, quis agradar alguém, olhou pra trás e tirou a calcinha/cueca de algum lugar, sentiu dor de barriga em um horário ruim, conversou com uma pessoa chata, conversou com uma pessoa legal, escutou atentamente os conselhos dos mais velhos sem necessar...

Marcelle

Marcelle, com dois “L”, utiliza o mais alto tom de voz que possa existir. Mais branca que leite de caixa, suas veias aparecem sem receio. Baixinha, larga e branca: formato A4. Gosta de música e caminhada. Os fones de ouvido já fazem parte dela assim como qualquer membro do seu corpo. Certamente, são os causadores do elevado zumbido quando abre a boca. Marcelle gosta de diálogos, mas não tira os fones para tornar a conversa mais agradável e menos pública. A branquela conta sua trajetória de vida e a rotina maçante de todos os dias e há de quem a interromper. Marcelle é exagerada. Marcelle procura um namorado, chegou a dizer que não entende porque ainda está solteira. É, Marcelle, não está fácil pra ninguém. Os cabelos de Marcelle são pintados de uma cor que ainda não pude identificar, apresenta um tom alaranjado disfarçando a raiz de fios castanhos claros. São cacheados. Sempre enrolados em um pompom da década de 80, aqueles grossos, preto, que só dão duas voltas. Marcelle possui p...

Paradoxos

Acabei de encher os olhos de lágrimas (pela quarta vez) assistindo o filme Marley e eu . Tenho medo de cachorros, na verdade, de animais. Sou de 1992, mas quando meus pais contam as histórias de 1970/80 morro de inveja. Quero ter 30, mas não tenho vontade de envelhecer. Não sou devota de Padre Cícero, mas tenho três fitinhas amarradas no pulso esquerdo há dois anos, em homenagem ao padim. Adoro frio, mas quando faz frio peço calor. Não gosto de festa, mas fui seis dias consecutivos, até na chuva, eu estava lá. Prefiro show à festa. Sítio é o melhor lugar do mundo pra se viver, mas moro no centro da cidade. Quando tem muita gente ao redor reclamo, quando não tem ninguém acho dez vezes pior. Azul certamente é minha cor favorita, mas no guarda-roupa ela aparece timidamente. Nunca chorei (apenas enchi os olhos de lágrimas) assistindo um filme, mas solucei no último episódio do seriado Friends . Em dias chuvosos ando sempre com o guarda-chuva, mas não utilizo. Uso bastante as redes soc...

Gostaria

Gostaria de viver andando pelo mapa. Gostaria de ser as águas agitadas de um oceano pacífico. Cada montanha uma lembrança, cada lembrança uma gargalhada. Gostaria de escutar o eco dessa risada estrondosa. Ser infinito, não sei, mas ir além da porta, quem sabe. Gostaria de lembrar como é viver dentro de uma barriga e achar isso bom. Gostaria de chegar no resultado de uma equação. Equalize. Gostaria de brincar todos os dias como se fosse o último dia. Gostaria de ser um  Urubu  ..como voa alto! Gostaria que houvesse menos cordialidade e mais honestidade. Gostaria que esperança não fosse motivo de deboche e que a ilusão fosse passageira. Gostaria que as pessoas que reclamam de tudo e fuxicam de todos não fossem as mesmas que furam a fila do banco. Gostaria que os “achismos” fossem achados boiando no mar por falta de conteúdo. Aliás, gostaria que beleza não entrasse no conteúdo, até porque considerar beleza como essência seria uma p... leseira. Gostaria que o congresso nacion...

Dedicatória

            Toda manhã pergunta se quero tapioca e diz que tem café. Se ficar ali na cozinha a conversa se alonga até a hora do almoço. Agora, ela não coloca mais minha comida por que tive que diminuir na quantidade e mudar o tipo de prato, de fundo para o raso. Certa vez, confundi o prato que ela preparou com uma montanha. Acorda cedo e debulha feijão, vai à rua, ajuda quem a procura, se preocupa e quando estou de saída se despede com um “Boa sorte” e que “Deus acompanhe”. Vejo nos olhos dela uma felicidade sincera. Uma felicidade que uma mulher só é capaz de esboçar depois que passa pela tal experiência de ser mãe. E toda vez que eu saio de casa imagino o quanto ela fica aflita, por que o mundo não sabe o amor que envolve aquela aflição e no mundo falta exatamente o que tem de sobra pra ela. É que no mundo, na maioria das vezes, há aflição, mas não há amor suficiente pra compensar.            Ela confia, ela ac...

Cuide bem do seu amor!

Não contente com o resultado do jogo, Joel prometeu que não iria mais ao estádio. Percebeu que era um torcedor fraco porque seu time era um fracasso. Mas, por que tanto amor? Por que o choro depois da derrota? A inconsolável tristeza da promessa o fazia perceber a dificuldade da separação. Os primeiros dias foram duros, tentava não sair de casa, se saísse seus conhecidos iriam comentar sobre o jogo e ele, em outros tempos, iria defender seu time, mas agora iria se calar. A situação crítica da saudade de Joel ocorreu duas semanas após sua promessa quando, pela janela, viu uma criança trajada com o uniforme do time do coração. Sentiu a nostalgia bater na porta, pois via o seu reflexo naquele garoto. Tentou a carreira, mas o barraram por causa do tamanho. Passou a escrever textos esportivos, sem publicá-los, guardava suas lembranças em cima das linhas tortas que ele mesmo pautava.  Eram poucas palavras. Toda sua emoção cabia em uma folha, afinal é um cara tímido e sucinto. ...