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Mar noturno

Já vi infinitas cenas de novelas e filmes em que os protagonistas vivem uma das melhores sensações que um ser humano pode sentir: entrar no mar à noite. Sempre quis fazer isso, parece que lava a alma, renova suas forças, revigora sua crença em si e no mundo e coloca mais tempero em sua vida, literalmente. Na noite de sexta-feira passada, depois de 21 anos de existência, consegui realizar esse desejo. Entrei no mar como se estivesse reconhecendo um velho amigo, reencontrando-o. E realmente estava. Sem preocupação alguma, esqueci-me de tirar até o relógio que havia comprado no camelódromo (ele não é à prova d´agua). Mas, eu estava no mar 23h00min, pulando ondas, ‘tomando caldo’ e agradecendo a Deus por aquela oportunidade, juntamente com os meus amigos. Em um dos mergulhos, segui o conselho que estava escrito na blusa que vestia: “HAKUNA MATUTA”. Não se preocupe com sua roupa molhada, com seu cabelo cheio de areia e sal ou com o seu dinheiro ensopado. Não se preocupe com nada. Meia ho...

Dredão

Em meados de 2003, deixei de pentear o cabelo. Não me pergunte o porquê, nunca saberei explicar e mesmo que soubesse os argumentos não seriam convincentes. Comecei a sentir o que era depressão e esquizofrenia. Tornei-me uma adolescente antissocial.  Foram tempos difíceis, não há como negar. Tarefas simples do cotidiano eram obstáculos enormes na minha rotina; Encostar a cabeça no travesseiro: impossível; Usar shampoo: preocupante (poderia causar mofo no nó); Conversar com os amigos: angustiante; ir pra aula: aterrorizante; Sair de casa: sufocante. Não é fácil desatar um nó, qualquer que seja ele. Esse nó, especificamente, mexia com a autoestima e com o psicológico. Foram dois anos e meio convivendo com algo que você não gosta, mas continua deixando ali pra não piorar a situação. Só que o ruim sempre pode piorar. E piorou. Pensei em fugir, fiz uma lista negra, desaprendi as regras da boa convivência. Em outubro de 2005, minha irmã decepou o dedrão da minha cabeça. Passamos hora...

Né, não?

 “Né, não?”. Experimente dizer não. Outro dia a senhora que comprava pão, logicamente na padaria, disse a seguinte frase: - Esses políticos são ‘tudo’ uns ladrões, né, não? Em minha mente concordei parcialmente, pois se ela não tivesse introduzido a palavra ‘tudo’ estaria tudo OK, porque uma coisa que eu aprendi nessa vida é que nunca se pode generalizar.  E aqui não entra aquele ditado “nunca diga nunca”. Nunca se pode generalizar. Pois bem, a senhora de 80 e poucos anos simpatizou com minha cara. Olhado fixamente para mim, ela explanou: - Tá tudo muito caro, né não, minha fia? Mais uma vez concordei parcialmente, mais do que na primeira vez. O gesto de balançar a cabeça afirmativamente não demonstra que você está concordando apenas em partes. E era por isso que ela estava gostando de monologar comigo. Sentindo-me agoniada por causa da fome, comecei a ficar ligeiramente irritada com o tom elevado das exclamações da senhorinha que gosta de utilizar ‘tudo’ ...

Breve diálogo de infância

Março de 1990 - Por que seus cabelos são brancos? - Stress... - O que é stress? - Algo que você ainda não tem... - Me explica o que é. - Estou apressado... e por que você não pergunta a sua mãe? - Por que eu não a vejo com tanta frequência como eu vejo o senhor. - Primeiramente, não me chame de senhor. Segundo, eu nem te conheço... E terceiro, cadê sua mãe? - Primeiramente, o chamei de senhor por educação... 'Segundamente', eu vejo o senhor todos os dias lá de cima... 'Terceiramente', minha mãe está em casa, não fico muito tempo lá. - Lá de cima? - Da árvore, passo o dia inteiro lá... Nas férias contei todos os seus cabelos brancos. - Impossível, são incontáveis. - Contei na semana passada e dava pra contar sim, eram poucos... Hoje contei novamente e por isso que vim conversar com o senhor... - Você veio conversar comigo por que percebeu que meus cabelos brancos aumentaram? - Aham. Será por conta desse “stress”? - Certamente. - Tenho...

Repertório

Suponho que você já tenha falado, pelo menos uma vez na vida, sozinho. Suponho que já tenha ido a um estádio, que já tenha passado por alguma situação constrangedora, imaginou que poderia ser um super-herói, achou que determinada música foi escrita especialmente com base em sua relação amorosa. Tenho certeza que você já riu de alguém, sem perceber que alguém estava rindo de você também.  Tenho uma certeza quase absoluta que você se “apaixonou” algumas vezes. Suponho que você já caiu de bicicleta, tirou nota baixa, passou por umas crises de idade, respondeu a sua mãe, não quis tomar banho, quis ir morar em Pasárgada, sentiu vergonha quando seus pais estavam presentes na sala e passava alguma coisa inapropriada pra vocês assistirem juntos, quis agradar alguém, olhou pra trás e tirou a calcinha/cueca de algum lugar, sentiu dor de barriga em um horário ruim, conversou com uma pessoa chata, conversou com uma pessoa legal, escutou atentamente os conselhos dos mais velhos sem necessar...

Marcelle

Marcelle, com dois “L”, utiliza o mais alto tom de voz que possa existir. Mais branca que leite de caixa, suas veias aparecem sem receio. Baixinha, larga e branca: formato A4. Gosta de música e caminhada. Os fones de ouvido já fazem parte dela assim como qualquer membro do seu corpo. Certamente, são os causadores do elevado zumbido quando abre a boca. Marcelle gosta de diálogos, mas não tira os fones para tornar a conversa mais agradável e menos pública. A branquela conta sua trajetória de vida e a rotina maçante de todos os dias e há de quem a interromper. Marcelle é exagerada. Marcelle procura um namorado, chegou a dizer que não entende porque ainda está solteira. É, Marcelle, não está fácil pra ninguém. Os cabelos de Marcelle são pintados de uma cor que ainda não pude identificar, apresenta um tom alaranjado disfarçando a raiz de fios castanhos claros. São cacheados. Sempre enrolados em um pompom da década de 80, aqueles grossos, preto, que só dão duas voltas. Marcelle possui p...

Paradoxos

Acabei de encher os olhos de lágrimas (pela quarta vez) assistindo o filme Marley e eu . Tenho medo de cachorros, na verdade, de animais. Sou de 1992, mas quando meus pais contam as histórias de 1970/80 morro de inveja. Quero ter 30, mas não tenho vontade de envelhecer. Não sou devota de Padre Cícero, mas tenho três fitinhas amarradas no pulso esquerdo há dois anos, em homenagem ao padim. Adoro frio, mas quando faz frio peço calor. Não gosto de festa, mas fui seis dias consecutivos, até na chuva, eu estava lá. Prefiro show à festa. Sítio é o melhor lugar do mundo pra se viver, mas moro no centro da cidade. Quando tem muita gente ao redor reclamo, quando não tem ninguém acho dez vezes pior. Azul certamente é minha cor favorita, mas no guarda-roupa ela aparece timidamente. Nunca chorei (apenas enchi os olhos de lágrimas) assistindo um filme, mas solucei no último episódio do seriado Friends . Em dias chuvosos ando sempre com o guarda-chuva, mas não utilizo. Uso bastante as redes soc...