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O causo de Antônio: Entre a espingarda e a caneta

De dia um sol endiabrado. De noite uma vista angelical. As três Marias desfilam na imensidão azul acalmando os pensamentos e o coração de Antônio. Recebeu nome de Santo, pois segundo a crença popular, menino que nasce com o cordão umbilical enrolado no pescoço tem que atender por Antonio. À espera do sono, o menino raquítico e de índole em formação divaga diante de uma cachoeira de sonhos. Um deles é crescer e ser um grande escritor.  A primeira vez que segurou uma caneta sentiu um tremor na mão, pois as palavras queriam encher o guardanapo de histórias. O mesmo sentimento de quando levantou uma espingarda.   A ausência de sono o deixava feliz, pois era o momento mais propício para escrever e desenhar causos do cotidiano. Quando lhe faltava papel ou guardanapo, descansava sua criatividade na parede no pequeno quarto sem cor, sem vida, lotado de mofo. A casa do miúdo Antônio perdia-se no meio do sertão. De alvenaria, com poucos cômodos, um fogão a lenha e um bocado de ar...

Andarilho Viajante

Outro dia, ouvi dizer, na calçada de vovó, que ele passara tão depressa que não se escutou um ‘Bom dia’. Não aguenta ficar parado em canto nenhum. Sobe ladeira em Olinda, desce a chapada do Araripe com invejável flexibilidade, se esconde entre as árvores de Eucalipto e se deita na nascente mais próxima. Andarilho viajante às vezes espera na janela, gosta de ver o entardecer do sertão e o luar que se estende por todo o céu estrelado. Falando em estrelas, adora sua companhia, pois sabe que elas são confiáveis e iluminam o caminho de quem está à deriva. Aliás, dia desses, andarilho viajante perdeu-se no meio da serra e precisou da ajuda de suas amigas brilhantes. Cruzou no caminho de uma onça. Sem o animal perceber, ele o seguiu. Chegou numa toca onde a onça estirou as patas e começou a cochilar. O danado do andarilho tropeçou numa grota e a onça brava que só ela foi averiguar. Escondeu-se tão bem que o bicho não achou. Escondeu-se melhor que o sol em fim de tarde. Mas o mérito não ...

Capítulo 4

Apesar dos TOCS, não sou do tipo “não me toque”! Tenho vários TOCS que incomodam pra caramba e compartilho aqui com vocês: 1)       Não consigo dormir enquanto não verificar: todas as portas (incluindo a porta da geladeira), Janelas também, se o botijão de gás está vazando, olhar se tem alguém embaixo da cama, colocar os controles na estante, telefone na base. Se tudo estiver ok posso dormir tranquila; 2)       Não consigo sentar em assentos de ônibus que estiverem com estofado danificado; 3)       Não consigo comer com a borracha do talher queimada; 4)       Tenho horror quando a chinela fica emborcada; 5)       Só consigo tomar banho com pés descalços na minha humilde residência; 6)       Não consigo vestir a blusa do Vasco (Isso não é TOC, é alergia);        7) Tenho duas canecas, uma...

Capítulo 3

Sorriso Colgate longe de mim Lugar de escovar os dentes é no banheiro. Por acaso você toma banho no meio da sala ou defeca no quarto? Estou torcendo aqui pra resposta ser um “não”. A pia do banheiro é reservada pra você escovar os dentes lá.  Detesto quando estou assistindo TV e chega uma pessoa com a boca cheia de espuma do meu lado, faz uma pergunta que não dá nem pra entender e ainda coloca a mão embaixo do queixo pra espuma não cair na blusa. É deselegante, gente. É tipo quem fala de boca cheia, só que ao invés de comida tem um monte de espuma na boca. Sempre, sempre mesmo, que você escovar os dentes perto de mim não fique chateado com a minha reação, quer dizer, se quiser fique. Saio do local, respiro 1 minuto e volto. Não é frescura. Tá bom, pode até ser, então respeita!

Capítulo 2

JÁ ME CONFUNDIRAM COM UM MENINO Aos nove anos, mainha me levou pra cortar o cabelo. Sempre cortava um channel básico com um "pezinho" atrás. Não sei por qual motivo, Dona Lourdes, resolveu enfiar a tesoura nas minhas madeixas e cortou quase tudo. Tornei-me "tomboy".  Na época, não gostava de brincos. Andando com painho em uma tarde ensolarada de 2001, fomos à casa de Dona Maria tomar um pouco de água. Chegando lá, um cara lá no alto, quase que desaparecendo no meio da roça, soltou a seguinte pérola: - Oxe Chico, sabia que tu tinha um machinho não.  Eu e painho também não sabíamos. Pra aquele homem eu não era Camila, e sim Camilo. Por alguns minutos, Painho teve um garotinho de companhia.

23 CURIOSIDADES NESSES 23 ANOS

Capítulo 1 JÁ FUI VASCAÍNA, MAS AGORA SOU FLAMENGUISTA COM MUITO ORGULHO Confesso que já fui vascaína. Não me orgulho dessa fase. Mas, me orgulho do motivo que me fez torcer pelo Vasco da Gama por alguns sofridos anos. Meu pai é torcedor do alvinegro carioca. Quando comecei a ver futebol, imaginei: se meu pai torce esse time alguma coisa boa deve ter. Comecei a ser Vasco aos sete anos. Vestia a camisa, colocava a mão no peito e destrinchava todo o hino. De nada adiantava, o Vasco não me dava alegrias. Porém, ainda estava na linha tênue da decisão: será que é esse time mesmo? Por que painho, minha referência, torce o Vasco? Em 2001, na final do carioca, realmente acreditei que seria a chance da minha voz ecoar reverenciando o vasco. Apesar de ainda não ter certeza da escolha, acreditava que o vasco ganharia do flamengo.  Quando Petckovickt fez o gol da vitória, com uma cobrança de falta esplendorosa, chorei. Chorei por que não bastava só acreditar, tinha que te...

E agora, José?!

José chegou ao Brasil somente com a roupa do corpo. Perdeu sua mala na imensidão do mar após uma confusão com ingleses. Mesmo sem roupas e dinheiro, José se encheu de alegria quando colocou os pés em terras brasileiras. Achou tudo muito diferente das histórias que seu pai contava. Mas, olhou pra Chapada do Araripe e confirmou o que Seu Luiz Gonzaga dissera: Cratinho é terra boa. Decidiu que ali ficaria para o resto da vida. Aprendeu a cantar o hino e é mais patriota do que qualquer brasileiro. Com ajuda de amigos abriu uma cafeteria na Rua Teófilo. É flamenguista de coração e costuma discutir com o vizinho sobre futebol. Conheceu Bernadeth numa manhã de sol escaldante. A moça veio até o balcão com a cara pintada com as cores da bandeira nacional e pediu um genuíno café, dois pães amanteigados com mortadela e mais um café, só que agora com leite. José ficou bestificado com tamanha fome, mas ficou ainda mais lesado com a beleza daquela garota. Acabou que não se aguentou e puxou conve...