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Antônio da saudade

Qualquer fila gera comentários. Essa é a história de um homem em uma fila de banco qualquer. Um senhor de aproximadamente 60 anos chega na agência bancária para marcar seu lugar na fila. Ele tem um cheiro que todos identificam, mas ele próprio não sente. Com a blusa mal passada e um guarda-chuva na mão, ele parece lamentar ter que esperar. Cansado, ele pega o lixeiro branco que está na sua frente e o ressignifica.  O lixeiro vira uma poltrona para as pernas sexagenárias e impregnadas de artrose. Tenta reivindicar seu direito na fila, por ser idoso, mas sem sucesso, todos na fila têm a cima de 60 anos. O queixo escorado no cabo do guarda chuva revela a sonolência daquele senhor. Ele tenta puxar conversa com as outras pessoas que estão na fila, mas estas parecem o rejeitar. Até que uma senhora lhe pergunta a hora. Constrangido, ele responde que não sabe. O relógio, presente de sua mulher, está parado há um bom tempo, desde que ele ficou viúvo. Para ele o tempo estagnou ali. Ele sen...

Túlio

Túlio escutava a música Tempos Modernos e não acreditou que o tempo escorre pelas mãos. Túlio não é bom em apresentações, nem em qualquer coisa que volte a atenção para ele.  Segue o coração, sempre. Toda vez que tentou usar a razão para resolver questões matemáticas e pessoais não deu certo. Túlio é do tipo cheio de manias. Manias esquisitas. Manias do mundo moderno. Não gosta do cheiro de pasta de dente, não senta em banco de ônibus que o estofado estiver rasgado, não gosta de tomar banho, mas toma. Diferentemente de muitas pessoas, Túlio é sensível ao distinguir entre aquilo que não gosta e do que é necessário. Ele não tem muitas ambições, mas todo sábado aposta na loteria. Túlio acha que gosta do que faz, mas a vida não está fácil para ninguém. Na flor da idade, de vez enquando passa por algumas crises existenciais, normal! Se apaixona todos os dias e tem uma imaginação fora do comum. Apesar de ter 18 anos, Túlio acredita que pode lutar como Jason Bourne, que o beco diag...

Sonho e medo são antagônicos

Li uma frase que me fez refletir. “Medo e sonho não devem caminhar juntos”. Sempre é fácil falar. É o medo de aventurar-se, é a oportunidade que não é o sonho. O cotidiano revela várias paisagens e sentimentos que ecoam nas curvas do cerebelo e no coração que ás vezes é duro de aceitar. Temer não é um defeito e nem qualidade. Temer é um verbo de impacto que nos amedronta pelo seu complexo significado. O medo é complexado. Às vezes nem é medo, é nojo. É ruim ter medo das pessoas, mas isso já virou hábito ou até mesmo uma necessidade. É o medo de viver. Viver não combina com temer. Sonhar é indefinível, inexplicável, infinito e único. Medo é apenas indefinível e inexplicável. Dependendo do medo, ele pode ter um fim. E o medo vai de acordo com a pessoa, com sua devida repetência, por isso não é único. Sabemos bem lá no fundo, que nem que seja na nossa cabeça, o sonho é tão possível quanto ter medo de barata. O medo estraga. Frio na barriga não é característica de medo e sim de posit...

Há quem pense, só pense!

Há quem diga que a cordialidade está fincada nas raízes brasileiras. Essa cordialidade explica muita coisa. Na verdade, todos os dias alguém inventa algo para explicar o até então inexplicável. E isso acontece por causa da diversidade de personalidades.          Há quem escute música e se apaixone, chore, tenha lembranças. Para alguém uma música já significou um determinado tempo da vida. Veja bem, Paulo nunca gostou de Los Hermanos, mas era “O vencedor” que estava tocando quando conheceu Ana Júlia. Tem música que define o sentimento e parece falar com você. Quem nunca escutou uma música e achou que ela foi feita especialmente pra você? Enquanto uma pessoa pensa nisso, outras milhões pensam a mesma coisa. Há quem pense que “Bom dia”, “Boa tarde” e “Boa noite” só possam ser dados a pessoas conhecidas, mas há quem pense o contrário. Se bem, que há quem pense que furar a fila do banco não é um ato corrupto.  Há quem pense que ir para missa todos os dias...

O motivo excedeu o machismo

Sem que ninguém saiba, os homens choram. Escondidos ou fingindo eles geram lágrimas. De crocodilo? Pode até ser, mas não deixa de ser lágrima. Outro dia o cara chorou na fila do banco porque não havia conseguido um empréstimo pra construir sua casa. No dia seguinte um deles chorou porque seu time perdeu a partida contra seu principal rival. Chorava porque era um louco, um louco de amor. O rapaz derramava lágrimas porque a mulher tinha perdido o bebê. E o que estava ao seu lado, chorava de alegria porque a namorada havia feito o teste de gravidez e o resultado deu negativo. O senhor de meia idade chorou enterrando sua esposa e por sentir que sua hora também chegaria. O filho de Aparecida sentou no banco da praça e dormiu, aos prantos, pois perdeu o emprego. Aparecida também chorou quando recebeu a notícia, mas é preciso enfatizar que ele chorou mais. Eduardo chorou muito quando viu as luzes do mundo, especificamente as luzes da sala de cirurgia. Desembestou a chorar quando sentiu ...

Caminhada de quinta

Depois da caminhada ao bairro Seminário, ao lado de minha irmã e de minha prima, achei que não aguentaria outra ladeira no mesmo dia. Mas, sabe o que acontece? Quando começo com os exercícios físicos fico numa empolgação fora do normal, mesmo com minhas pernas pedindo pra parar. Uniformizada com a blusa da seleção brasileira minha prima me convidou para ir à caminhada de um dos candidatos a prefeitura de Crato. Como boas “andadeiras” fomos enfrentar mais uma ladeira rumo ao Bairro Pantanal. Nunca tinha ido para tal lugar, mesmo sendo na cidade em que moro. Quando chegamos em frente ao clube, não parava de reclamar: “Tem que subir a ladeira inteira”? Alana me consolava dizendo que não, na primeira esquina nós iríamos dobrar...          Em seguida me desesperei por que lembrei que estava com a camisa da seleção brasileira, a camisa amarela. Amarelo na campanha política da cidade significa o outro candidato, candidato esse que não era o que iríamos ac...

Ivete Sangalo como Maria Machadão

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Espontaneidade e carisma. É assim que Ivete Sangalo dá vida a Maria Machadão. Com um olhar intenso e sotaque característico da personagem e intérprete, o enredo do Bataclã se desenvolve com harmonia. Mesmo com uma personalidade forte que dá segurança as suas quengas, Machadão também tem seu lado Maria. Maria que batalha, Maria que não cruza os braços, Maria que ama. Não é preciso ser “Santa” para ser Maria. É preciso ter história. Atrás de uma figura dura e segura existe um passado que reflete na postura de quem conseguiu sobreviver a uma dura realidade do início do século XX. O amor antigo e ainda aceso pelo o Coronel Ramiro Bastos é o seu passado e presente. Dona de um bordel na década de 20, na pacata Ilhéus, Maria Machadão impõe respeito das quengas e dos coronéis. E por que não dizer das Senhoras da sociedade? O Bataclã de Machadão, ao mesmo tempo em que representa diversão para os homens, também representa a desonra para as mulheres. Dentro daquele cenário, além da di...