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O que é aproveitar a vida pra você?

É correr na Praça Alexandre Arraes ao som da música tema de Rock Balboa e me sentir o próprio Balboa. Por alguns minutos esquecer daquilo que é banal, mas que de alguma forma consegue ter um espaço saliente em sua vida. É ler poema de Pessoa e saber que sua alma, assim como a minha “é um lago de indecisões”, e quando Leminski diz “que tudo passe, mas passe bem”. E depois escrever alguns versos distraídos, entre um gole e outro de café. É ficar encantada com uma grande história (verídica ou fruto da imaginação). É se reconhecer em um personagem como me reconheço na Rory Gilmore. É sorrir por nada, até por que, desde quando é necessário de motivo pra sorrir? É escutar Adele e ser transportada para aquela melodia que fala com você. É tão empolgante quando uma música fala com você, pra você. É observar as pessoas da janela do ônibus e depois escrever sobre elas. É viajar e conhecer lugares novos. É assistir ‘Na natureza selvagem’ 10 vezes e admirar a coragem de Alexander Super...

Aviões fantásticos e outras histórias

É interessante observar o olhar de admiração/curiosidade/afeição/estranhamento que as pessoas esboçam com a chegada de um avião. Ontem estive no Aeroporto de Juazeiro do Norte e não pude deixar de notar aqueles olhares desnorteados e ao mesmo tempo focados em direção a um lugar: a pista de pouso. Do garotinho no braço da mãe à espera do pai ao velhinho que carregava em sua expressão a agonia da saudade. Olhos curiosos dançando pra lá e pra cá, numa valsa bem ensaiada e com  seriedade de m tango legítimo. Olhares aflitos na imensidão do horizonte que não apontava nenhum passarinho gigante pronto pra posar.  Um clima de agitação se instalou quando um homem gritou “Lá vem ele”. E o garotinho dizia “É papai, é papai”. Quando o avião posou foi possível sentir o alívio daquela gente que mesmo admirando a performance daquele negócio enorme, ainda não consegue confiar totalmente. São tantos “Graças a Deus” juntos que mais parecem ecos. Seguidos por “Tem que ser muito inte...

Atraso

Ninguém sabe o dia que parte Menos Seu pereira Que sabia e não escondia Seria num dia qualquer de outubro Vítima de enfarte Padre Cícero teria lhe adiantado o assunto O finado mês chegou Seu Pereira começou os preparativos  Estava pronto pra enfrentar seu destino Se é pra morrer tem que ser com dignidade Jamais de improviso Encomendou caixão, velas e ingredientes pro caldo Chamou até gente pra fingir saudade E ficou de sobreaviso Convidou o povo pro velório Outubro passou e nada aconteceu Seu Pereira indignado continuou o falatório Sobre sua morte que não veio Diante do imprevisto Percebeu que aquilo era um sinal De que talvez fosse imortal Deixou de tomar os remédios Acendeu o cachimbo Foi refletir lá pras banda do quintal E passou o resto dos dias morrendo de tédio No alpendre divagou Sobre o tempo e o destino De repente lhe deu uma caganeira E Diante de uma suadeira e grave situação Seu Pereira morreu naquele dia...

Não dirigir é normal

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Tenho 24 anos e não dirijo. Sinto-me julgada. Sou passageira, nunca motorista. Qual o problema? Estou só de passagem mesmo. Você conseguiu aprender a dirigir? Parabéns, mas não sou igual a você. Não dirigir é normal. Gosto de andar percebendo a cidade, observando a gente. É desse gostar que encontro inspiração para escrever minhas crônicas, poemas. É numa viagem de ônibus entre Crato e Juazeiro do Norte que me deparo com situações inusitadas, clichês do cotidiano e personagens do nosso interior espetacular. Às vezes caminho distâncias que outras pessoas só passam de carro. Apenas passam. Passar pela cidade não é o mesmo de observá-la, percebê-la. Claro que andar de carro é bom. Quem falou o contrário? É rápido. Útil. E nesse sol da bexiga e calorzão sertanejo é melhor ainda. Pois bem. Depois de muita insistência (e porque eu quis também) caí na besteira de ir pra autoescola. Fiquei nervosa no dia da prova prática e nas outras vezes que coloquei a chave na ignição. ...

Se não tem café...

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Se não tem café o dia não começa Permanece madrugada Tardezinha e nem acordei ainda O cheiro do pretinho é um ‘Bom dia’ necessário Se não for pronunciado não vale a pena ir até a esquina Café é sobrevivência, companheiro, conselheiro despertador das pálpebras caídas do bocejo, do cansaço, da preguiça Deposito nele a confiança do acordar mesmo já estando de pé   Empurra, tira essa ressaca, hoje é segunda-feira, ajuda na batalha A vida pede um gole de café Se não tem café o dia perde e você pira.

Cibele soltou!

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Ross solta Phobe do mesmo jeito que Cibele me soltou. - Não solta! Cibele soltou. Cibele Soltou. Desespero, porém Carpe diem. Por alguns segundos esqueci a raiva. Eu não andava de bicicleta, mas com a bicicleta. Tipo a Phoebe. ( Acesse este link e confira ) Desci ladeira abaixo na mais profunda sensação de liberdade. O guidão da bicicleta me guiava até me dar contar que Cibele havia desobedecido meu apelo. Por mim, poderia ficar pedalando o dia inteiro, debaixo daquele sol endiabrado. Que seja. Era como voar.  Quando olhei pra trás e vi que Cibele não estava mais comigo, me desesperei. Fui de encontro à parede. Senti-me traída. Primeiros sinais de uma legítima canceriana. Fiz drama. Estava indignada. Porra, velho. Cibele havia me abandonado. Minha irmã. O que esperar do mundo? As horas se passaram naquele dia que não me recordo à data e carregaram a raiva para um lugar distante. Os anos me mostraram que não havia sido traída. Fui ficando cada v...

O causo de Antônio: Entre a espingarda e a caneta

De dia um sol endiabrado. De noite uma vista angelical. As três Marias desfilam na imensidão azul acalmando os pensamentos e o coração de Antônio. Recebeu nome de Santo, pois segundo a crença popular, menino que nasce com o cordão umbilical enrolado no pescoço tem que atender por Antonio. À espera do sono, o menino raquítico e de índole em formação divaga diante de uma cachoeira de sonhos. Um deles é crescer e ser um grande escritor.  A primeira vez que segurou uma caneta sentiu um tremor na mão, pois as palavras queriam encher o guardanapo de histórias. O mesmo sentimento de quando levantou uma espingarda.   A ausência de sono o deixava feliz, pois era o momento mais propício para escrever e desenhar causos do cotidiano. Quando lhe faltava papel ou guardanapo, descansava sua criatividade na parede no pequeno quarto sem cor, sem vida, lotado de mofo. A casa do miúdo Antônio perdia-se no meio do sertão. De alvenaria, com poucos cômodos, um fogão a lenha e um bocado de ar...